Um grupo de estrangeiros passa pela rua, quase meia noite a arrastar malas. Cá dentro, a Verónica diz cheira-me a sabonete, está acolhedor. O gato, o Tomé, deixa o nariz por todo o chão, pescoço esticado, mia sempre que se vê sozinho. Eu não sou tanto de miar até porque os barulhos da rua e os sons ainda me são familiares, ruídos de quem está em casa. Não sei quando foi a última vez que dormi cá, talvez em 2007, umas voltas atrás e à frente, para me voltar a deitar aqui. Pelo meio, arrumei caixotes, abri arquivos, aqueles da memória e do coração, fiz outros novos, aprendi, tive medos, deixei de os ter e tenho-os ainda, a outros, em parte os mesmos. Hoje deito-me de novo, há ainda caixotes, segredos por descobrir, histórias e re-histórias por contar. Mas sempre combinei que no dia em que aqui voltasse fechava esta porta vinte e três, para abrir outra, a porta da rua do poço. A quem me fez companhia, aos meus amigos, obrigada, por tudo, por me cobrarem o atraso na escrita, por me acompanharem nos dias da obra. Ao meu irmão, Pedro, obrigada por me teres lido atento, por me teres também dado memórias. O Dumitri ainda terá de voltar, para resolver o salitre e construir o fogareiro. E eu ainda tenho muito que arrumar. Mas esta porta fica aqui, a outra está aberta. É só tocar, vocês sabem onde fica.
A mãe da Prima Milú, a Prima Maria Teresa era filha de uma irmã da minha bisavó materna. É simples. Por isso, o Eduardo, neto da Prima Maria Teresa é meu primo. E por isso, a Prima Milú e o Eduardo ajudaram-me a montar duas camas, coisa que parece fácil nas mãos dele, impossível nas minhas, que não reconheço as partes, as travessas, os pés. A Prima Milú era mais nova que a minha mãe e veio cá a casa despedir-se, estava a partir para África, grávida da minha outra prima e nesse dia, estava a tua mãe sentada neste quarto, contigo ao colo, com uns meses. Aqui a tua mãe, tinha posto umas boias verdes, de vidro. Aqui o relógio, não me lembro nada dele na casa da tua avó. E esta bengala de marfim e de prata, isto é para estimar. Ri-se e conta que aquela jarra afinal é um escarrador e que a prima Rosinha, a minha avó, então, tinha também um verde com uma batata doce em água lá dentro que dava uma linda ramagem. Imagino servir mousse de chocolate às visitas no escarrador mas não lhe conto, só sorrio. Este biombo é a peça que o Eduardo mais gosta, foi a tua mãe que o encontrou num antiquário e o Eduardo recupera tudo quanto é antigo, o pai dele, enfim, nem um prego do chão apanhava. Em três horas, a prima Milú organizou dois quartos, limpou o pó, desempoeirou-me mais memórias e continuou sempre bonita com os seus setenta e muitos, sem um cabelo fora do sítio ou pregas nas suas calças brancas. Deixaram-me uma cadeira e uma mesinha de cabeceira colados e eu deixei a garantia que lhe ligava para a próxima para montar o resto. Recuperar a casa é um consolo. Recupera-se gente de família.
A Verónica encontrou um vestido que lhe emprestei para vestir em Budapeste quando tinhamos 19 anos. E uns naperons que não sei quantos anos levam de gavetas.
Os armários da velha cozinha tinham a louça para todos os dias. Os pratos verdes transparentes que vieram de Huelva existiam por quase todo o Portugal no início dos anos 70. E é desses que me lembro. Mas lá atrás estavam outros, esquecidos mas que agora lavei e empilhei nos armários. Fábrica Lusitânia, Sacavém, Sado Internacional, Alcobaça, Vista Alegre, um de cada, aqui e ali talvez dois, ao todo mais de vinte, entre pratos de carne, de sopa e pires. Pratos sem par, perguntei eu ao Pedro, que mania seria esta de comprar louça desta maneira. Não, estes são apenas os sobreviventes, ao tempo, às mãos descuidadas, às mudanças e ficaram guardados, porque como sabes, disse o meu irmão, o Pai não deitava nada fora. Nem que restasse um só prato de cada serviço. E das sobras quase que sai um serviço completo. Um genuíno serviço de extinta faiança portuguesa.
Quando saíu de Castro Daire pelas quatro da manhã de segunda feira passada, o sr Fernando, irmão do Sérgio e do Paulo da Lar dArte, não sabia ainda que me ia fazer feliz. Nem deve ter pensado muito em mim, apenas na cozinha que ia montar, mais uma, esta apenas um pouco mais longe. Não sei porque terá o meu Pai decidido em 1966 fazer uma cozinha de azulejos amarelos e armários azuis mas sei que foi por ele ter querido uma assim que eu agora quis que ficasse igual. Os armários azuis chegaram a Lagos pelas nove da manhã, os azulejos amarelos já lá estavam. Quando num dos vários telefonemas que me fez ao longo do dia, perguntei ao sr Fernando que tal estava a ficar e ele me respondeu ora, está igual ao desenho, está um espectáculo, não sei se lhe notei uma certa ironia na voz, talvez qualquer coisa dada pelo amarelo e azul. Ficou tudo pronto, foram-se embora e o meu irmão passou uma vistoria ao final dessa tarde. Mas só este fim de semana fui ver. E lá está. Não é uma cozinha nova. É a minha cozinha mas em nova. Por isso, sr Fernando, está um espectáculo sim. Está igual à memória.
Estes dois senhores que eu não conheço, irmãos e donos da Lard’arte em Castro d’Aire, são neste momento os dois homens de quem mais espero notícias. Há pouco ligaram com uma dúvida sobre o interior dos armários da cozinha. Cinzento claro, Sérgio.